Domingo é um dia de filosofar. Na verdade todo dia deveria ser, mas ficamos ocupados demais em coisas prosaicas, como por exemplo, ganhar o pão de cada dia. Então, sobra para o domingo.
Gostaria de discutir sobre um comentário feito pela leitora Helena, que sempre comparece com boas tiradas. Quando postei sobre a aprovação na Câmara Federal da lei regulatória da profissão médica, mal apelidada de “lei do ato médico”, ela postou o seguinte comentário, que reproduzo aqui, sem a preocupação de arrumar os acentos, que nem sei se são realmente tão úteis assim.
“Podia ter uma lei tambem pra que todo municipio fosse obrigado a formar medicos,afim de que pudessem trabalhar em suas proprias cidades, pelo menos por alguns anos. Ou então, uma lei que "incentivasse" os medicos recem formados a trabalhar no serviço publico tb por um certo periodo, considerando o "investimento" feito com dinheiro publico. Assim, com certeza, haveria medico em todo canto desse país, com qualidade e numero suficiente pra que pudessem seguir ao pé da letra a lei do ato médico, sem aumentar a burocracia e sem tornar o médico e tudo relacionado a ele, ainda mais inacessíveis do que já vêm sendo(pelo menos humanizadamente falando).”
Sempre me preocupei com a interiorização da medicina e por conseguinte, do médico. Já sabia, lendo o professor Gentile de Melo, ícone da saúde pública da minha geração, que em cidade que não tem banco, não tem médico.
Com isso ele queria dizer que a presença do médico em uma cidade dependia principalmente do desenvolvimento econômico local e de tudo que isso representa, desde condições para que esse mesmo médico exerça o seu ofício, como por exemplo, um hospital ou ao menos um centro de saúde bem equipado, com o mínimo de aparelhamento necessário, até as outras condições sociais, como escola para os seus filhos, possibilidade de aperfeiçoamento na própria profissão e mínimo conforto como telefone, televisão e hoje internet.
Na época de faculdade eu morava em São Paulo e andava com vários amigos que eram do interior. Por ironia do destino, eu vim para o interior e eles ficaram em São Paulo. A formação em medicina é muito demorada, oito a dez anos e isso cria um vínculo com o novo local.
Isso não acontece só com médicos, mas com dentistas, enfermeiros, engenheiros, advogados e mesmo em outras situações que não envolvam a universidade.
Um bom exemplo é a situação dos índios, de locais de difícil acesso. Acreditávamos que eles deveriam ser formados – na cidade - por exemplo, em monitores de saúde para retornar para suas comunidades. Entretanto a teia da cidade é muito forte e atrai aqueles que lá chegam e encontram melhores oportunidades de vida. Com o tempo percebemos que essa formação tinha que ser in loco.
Um certo general americano, ao final da primeira guerra mundial, comentou: “ – Como vamos devolver esses rapazes para as suas fazendas, agora que eles viram Paris?”
O Brasil transformou o seu perfil populacional de maneira dramática nestes últimos trinta ou quarenta anos. A maioria da população que era rural ou habitava em pequenas cidades se deslocou para os grandes centros, tanto no Sul-sudeste como no Norte-nordeste. Sempre em busca de melhores oportunidades. Querer que profissionais universitários façam o caminho inverso é complicado.
Posso falar por experiência própria, pois fiz esse caminho. Só consegui ficar em Rio Preto porque morei antes em Roraima e no Acre. Um lado cruel para o profissional que se interioriza é a desconfiança de parte da população – parte; não quero ser injusto.
Para uma população que está, literalmente, louca para sair de sua pequena comunidade, para viver no “glamour” de uma grande cidade, aquele profissional tem alguma coisa de estranho. Ou é meio louco ou é um mau profissional que não conseguiu espaço na maravilha da cidade grande.
Morei em uma pequena cidade da região e só granjeei o respeito da população quando comecei a trabalhar na faculdade de medicina da cidade grande. É duro, mas é verdade.
Quem quiser ver mais algumas discussões sobre o assunto, veja
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